O Copista e o Hacker

 Hoje há hackers. Antigamente, havia copistas, copiadores e imitadores. Copistas e imitadores de assinaturas, por exemplo, com o fito de falsificar documentos e a autoria dos mesmos. Mas, trabalho mais árduo que o do hacker de hoje era o trabalho do copista e imitador manual de antigamente. A este não deveria faltar o talento artístico da arte de desenhar. Ao passo que ao hacker de hoje basta-lhe o conhecimento e o domínio de ferramentas tecnológicas usadas no ciberespaço. Entra-te no computador e leva-te tudo o que nele guardas...

Alves dos Reis ficou famoso, em meados do século XX pela imitação das notas de conto - papel-moeda, dinheiro falso.

Mas, já nos finais do século XVIII e princípios do século seguinte, se destacara um beirão nesta arte de bem desenhar, para falsificar papel moeda e produzir muitas outras criações que a sua imaginação lhe proporcionava e, tão bem o fazia que Junot, depois de invadir Portugal com os exércitos de Napoleão,  quis levá-lo para Franca, juntamente com as suas armas e as bagagens recheadas de todas as coisas portuguesas que nos surripiou. Mas, a esposa de Junot, pelos vistos, não terá gostado da ideia do general e o beirão DOMINGOS SARMENTO, falsificador de papel moeda, ficou por cá. 

E foi parar à prisão, tendo sido condenado à amputação das mãos. Mas, privar alguém do instrumento das suas criações artísticas - ele não usava as mãos apenas para falsificar papel moeda! - pareceu aos julgadores ser esta pena demasiado cruel e ultrapassar, de longe, a finalidade específica que se pretendia: a de não voltar a falsificar papel moeda, uma vez que a utilidade das mãos vai muito para além disso. Então, comutaram-lhe a pena em prisão perpétua...

E José Germano da Cunha conta assim o caso deste beirão, no seu livro, "Apontamentos para a História do Concelho do Fundão", em 1892, do seguinte modo:

"... 

DOMINGOS DOS SANTOS DE MORAES çSARMENTO 

— Era natural do Fundão e morreu depois de 1807, não podendo designar-se o ano. Eis o que dele escreve Eduardo Coelho, nos seus PASSEIOS NA PROVÍNCIA:

«Foi Sarmento homem extraordinário na arte de escrever e desenhar em papel.

«Nascido duma família pobre, a sua indigência e a viveza da sua imaginação e engenho, o tentaram ao crime de copiar trinta e tantas apólices do papel moeda do estado, enchendo de admiração nacionais e estrangeiros.

«Processado e confitente do seu crime, fez ao governo a seguinte oferta: 

"COMPRO A SEGURANÇA DA MINHA O CABEÇA PELO MODELO DE UMA APÓLICE QUE NINGUÉM SERÁ CAPAZ DE REPRODUZIR".

«Foi seu defensor no processo o dr. Joaquim José Caetano Pereira e Souza. As suas razões são a melhor historia desse homem singular, e um documento valioso dos conhecimentos cientificos daquele jurisconsulto. 

Logo nos primeiros anos da sua infância, Domingos Sarmento deu provas do seu talento, pois que escrevia, por extenso, em brilhante forma de letra, o Padre Nosso e Ave Maria dentro da acanhada circunferência de um cruzado novo. (Nota 5)

«Sarmento foi mestre de ler, no Fundão. Era curto de vista, e de genio violento para os discípulos.

«Já adulto, chamou-o o bispo de Coimbra para ser convenientemente educado, e foi então que, abusando da sua rara aptidão, principiou a imitar as apólices, e a cunhar toda a qualidade de dinheiro.

«Preso e processado, foi-lhe afinal commutada a pena de amputação das mãos na de prisão perpetua.

«Junot quiz levá-lo para França, mas não o pôde conseguir em consequência da reclamação de sua mulher. 

Sarmento fez à pena cinco bilhetes de boas festas em que descrevia todas as façanhas militares de Napoleão. Estes bilhetes foram oferecidos a Junot, que os deu em mimo ao imperador, e devem achar-se nos archivos das Belas Artes de Paris, para onde Napoleão os mandou.

«O autor destas informações viu uma carta de Sarmento dirigida a um parente do Fundão, na qual, para se desculpar do seu silencio para com ele, lhe dizia entre outras cousas: 

— Dirigi ao capitão inglês Huil, meu protector, um bilhete de agradecimento, do qual só a primeira letra me levou oito dias a fazer, tendo-me levado mais de quinze a imaginar.

«Consta que as ultimas palavras de Sarmento á hora da morte foram:

— LEVO COMMIGO SEGREDOS QUE PODIAM FAZER A FELICIDADE DO MEU PAÍS; MAS NÃO OS QUERO LEGAR À FEROCIDADE DO SEU GOVERNO.»

Às precedentes informações dadas a Eduardo Coelho, juntarei outras, que se contam como verdadeiras. 

Diz-se que na cadeia, estando incomunicável, fizera, com o próprio sangue e com a pena dum pardal, um Crucifixo, contendo um requerimento, em que dizia que era o mesmo Deus que implorava a graça do seu perdão. Substituía as folhas impressas de qualquer livro, de modo que se não percebia a diferença. 

O seu julgamento verificou-se em 1798 ou 1799; e foi-lhe comutada a pena de morte. 

Afirma-se também com bom fundamento que, vindo a Lisboa um inglês, que tornara público apostar vinte moedas (96$000 réis) em como ninguém o excederia em caligrafia, Sarmento, que estava na mais deplorável miséria, encontrando um seu patrício, lhe pedira por alguns momentos aquela soma.  Foi-lhe esta emprestada e posta sobre a mesa, que se achava colocada no Rocio, onde se devia verificar a aposta. Sarmento lançou o primeiro traço duma letra; e por tal modo o fez, que o seu an- tagonista lhe disse: 

— GANHOU! — fugindo, corrido de ver- gonha.

Conta-se também que, sendo ainda muito criança, Sarmento, ao ver seu pai, que era alfaiate, afrontado por não chegar para certa obra o pano que lhe entregara o freguês, lhe pedira o giz e a tesoura e por tal forma se houve, que o pano chegou. «Fez um capote e um milagre», como diria o Tolentino.

É pena que desse homem, que foi um verdadeiro prodígio, tão poucos trabalhos restem. Fiz as maiores diligências para ver alguns dos mais primorosos, mas não o pude conseguir. Apenas na capela de Santo Antonio, no Fundão, há um compromisso escrito por ele. Há também em poder dum membro da distinta familia Macedo, do Fundão, dois volumes em 8.°, escritos por Sarmento. Eram três, mas o 2.° volume foi emprestado e nunca restituído. Conta cada um deles umas 600 paginas de letra tão perfeita e igual que parece de imprensa. Contêm a copia de inúmeros escritos de João de Macedo. Pediu, ou ordenou ele a Sarmento que os copiasse, e este obedeceu. Os livros têm, todos três, além das armas da familia Macedo, nítida e primorosamente desenhadas, o seguinte curioso titulo, em que falta na data a letra "D": 

— «Nova Miscellania curiosa , e proveitosa, ou collecção da historia sagrada , romana , ecclesiastica , e secular: e noticia dos imperadores, reys , e príncipes do mundo , e pelo que pertence a Espanha desde Adão , até o presente tem- po: com hum abundantíssimo compendio de muitas noticias curiosas, e interessantes, tiradas dos milhores , e mais verídicos A A. composta por João de Macedo Pereira da Guerra Forjaz de Vilhena; que a dedica, e offerece á Ex. m * Senhora D. Marianna de Mendonça de Pinna Osorio d' Proença sua tia, e comadre , etc., etc. Tomo primeiro. Fundão. Em o primeiro de Janeiro de MCCLXXXVII. »

(Ácerca de Moraes Sarmento podem ver-se o cardeal patriarcha Frei Francisco de S. Luiz, na Lista de alguns artistas portiiguezes; e Figanière, no seu Catalogo de manuscriptos portuguezes)..."






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