Da Administração Episcopal (Coimbra, sec. XVII...)
A Diocese, o Bispo e a Administração Episcopal (Coimbra)
https://documentcloud.adobe.com/link/track?uri=urn%3Aaaid%3Ascds%3AUS%3A7daaa96a-5c4f-4154-b4c5-cbc240c23066
Por: José Pedro Paiva
"... A nosso ver este tipo de problema só se pode resolver quando se analisa a intervenção e funcionamento da Igreja à escala de uma diocese, porquanto é a esse nível que se elaboram as estratégias concretas de acção pastoral que têm como receptores finais o conjunto dos fiéis. Esta ideia é ainda reforçada, para o período que nos ocupa, pelo lugar destacado que a partir do concílio de Trento é dado aos bispos em todo o processo de reforma disciplinar e pastoral da Igreja de Roma (3). Para se perceber como é que o bispo, enquanto representante da Igreja, tinha capacidade para se fazer ouvir e respeitar, é fundamental desde logo conhecer o espaço em que exerce os seus poderes, bem como toda a complexa máquina burocrática-administrativa que cria e gere para governar os seus territórios. 0 conhecimento do território no que concerne aos seus limites, à sua divisão administrativa, às suas características morfológicas, à existência de outros poderes alternativos e até concorrentes dos do bispo, constitui assim um quadro de referência fundamental. O conhecimento destas realidades era de igual modo sentido por alguns prelados quando eram nomeadas para dirigir a diocese. Assim, D. João de Melo, numa pastoral datada de 4 de Julho de 1684, imediatamente após a sua nomeação, pede a todos os párocos da diocese que lhe enviem uma relação das suas paróquias em que conste qual o seu orago, quem as apresenta, quantos eclesiásticos têm e se são ou não residentes na freguesia, quais os confessores com licença, quantos fogos possui, que ermidas nelas existem, etc. (4). A diocese de Coimbra ocupava uma vasta área na região Centro de Portugal com cerca de 7.500 km2 que, descrita de forma um tanto grosseira, se estendia de Aveiro até próximo de Leiria no sentido Norte-Sul, e que se desenvolvia do litoral para o interior desde o mar até às vizinhanças da Guarda, nos seus limites mais orientais (5). Era constituída por 369 paróquias que se agrupavam em três arcediagados, o de Penela (com 92 paróquias), o de Seia (123 paróquias) e o do Vouga (146 paróquias), para além das 8 fre-guesias da cidade de Coimbra que não faziam parte de qualquer destes três arcediagados. Este território transporta consigo as marcas de um passado distante claramente detectável na rede de padroeiros e de oragos de invocação das suas múltiplas paróquias, nos títulos que os párocos recebiam na sua freguesia e que o tempo mantêm praticamente inalterável (6). Estas referências pluri-seculares constituíram decerto referências que marcaram a vida das populações, pela associação que estabeleciam entre o espaço que habitavam e a circunscrição eclesiástica a que pertenciam, pela subordinação económica a que muitos estariam obrigados em relação aos padroeiros da sua paróquia, pelo culto privilegiado que elegiam a um determinado protector celeste ao qual a igreja paroquial estava ancestralmente ligada, pelo tipo de formação e desempenho do corpo clerical que mais de perto lidava com as populações. 0 conhecimento do território constitui ainda uma chave de acesso e de entendimento da própria documentação deixada pela actividade administrativa e pastoral do bispo na sua diocese, na medida em que os arquivos eclesiásticos e muitas das actividades através das quais o bispo marcava a sua presença (de que as visitas pastorais são um exemplo flagrante) organizavam-se em função da ordenação territorial do bispado. Na realidade, todo o trabalho de reconstituição e inventário da documentação da Câmara Eclesiástica que se tem vindo a executar no Arquivo da Universidade de Coimbra, mostra como a documentação aí se organizava em termos geográficos, sendo muito comum que os documentos tives-sem no seu canto superior esquerdo o nome da paróquia a que se referiam, para deste modo serem mais facilmente localizados e arquivados.
As visitas pastorais, por outro lado, eram efectuadas em função da rede de arcediagados e de paróquias, durante o século XVII e quase todo o século XVIII, já que nos finais do século XVIII passam também a respeitar a divisão em arciprestados.
O conhecimento do território ficaria mutilado sem a avaliação do número dos homens que o habitam. Não é possível determinar muitos dos indicadores de comportamentos das populações sem ter em conta o seu peso demográfico e a sua distribuição geográfica. Ora o conhecimento desta realidade no que diz respeito às populações de Antigo Regime liga-se quase exclusivamente à capa-cidade que a Igreja tinha para contar os seus crentes. As fontes principais e mais conhecidas para a efectivação desta tarefa, os registos paroquiais, eram, com maior ou menor rigor, produzidos pelos párocos. Quando havia necessidade de fazer um levantamento da população, gesto que foi muito comum durante o século XVIII por parte de alguns autores de corografias, recorria-se ao conhe-cimento que os párocos tinham dos seus fregueses, cômputo que normalmente seria realizado por estes através do registo de róis de confessados (7)..."
https://documentcloud.adobe.com/link/track?uri=urn%3Aaaid%3Ascds%3AUS%3A7daaa96a-5c4f-4154-b4c5-cbc240c23066
Por: José Pedro Paiva
"... A nosso ver este tipo de problema só se pode resolver quando se analisa a intervenção e funcionamento da Igreja à escala de uma diocese, porquanto é a esse nível que se elaboram as estratégias concretas de acção pastoral que têm como receptores finais o conjunto dos fiéis. Esta ideia é ainda reforçada, para o período que nos ocupa, pelo lugar destacado que a partir do concílio de Trento é dado aos bispos em todo o processo de reforma disciplinar e pastoral da Igreja de Roma (3). Para se perceber como é que o bispo, enquanto representante da Igreja, tinha capacidade para se fazer ouvir e respeitar, é fundamental desde logo conhecer o espaço em que exerce os seus poderes, bem como toda a complexa máquina burocrática-administrativa que cria e gere para governar os seus territórios. 0 conhecimento do território no que concerne aos seus limites, à sua divisão administrativa, às suas características morfológicas, à existência de outros poderes alternativos e até concorrentes dos do bispo, constitui assim um quadro de referência fundamental. O conhecimento destas realidades era de igual modo sentido por alguns prelados quando eram nomeadas para dirigir a diocese. Assim, D. João de Melo, numa pastoral datada de 4 de Julho de 1684, imediatamente após a sua nomeação, pede a todos os párocos da diocese que lhe enviem uma relação das suas paróquias em que conste qual o seu orago, quem as apresenta, quantos eclesiásticos têm e se são ou não residentes na freguesia, quais os confessores com licença, quantos fogos possui, que ermidas nelas existem, etc. (4). A diocese de Coimbra ocupava uma vasta área na região Centro de Portugal com cerca de 7.500 km2 que, descrita de forma um tanto grosseira, se estendia de Aveiro até próximo de Leiria no sentido Norte-Sul, e que se desenvolvia do litoral para o interior desde o mar até às vizinhanças da Guarda, nos seus limites mais orientais (5). Era constituída por 369 paróquias que se agrupavam em três arcediagados, o de Penela (com 92 paróquias), o de Seia (123 paróquias) e o do Vouga (146 paróquias), para além das 8 fre-guesias da cidade de Coimbra que não faziam parte de qualquer destes três arcediagados. Este território transporta consigo as marcas de um passado distante claramente detectável na rede de padroeiros e de oragos de invocação das suas múltiplas paróquias, nos títulos que os párocos recebiam na sua freguesia e que o tempo mantêm praticamente inalterável (6). Estas referências pluri-seculares constituíram decerto referências que marcaram a vida das populações, pela associação que estabeleciam entre o espaço que habitavam e a circunscrição eclesiástica a que pertenciam, pela subordinação económica a que muitos estariam obrigados em relação aos padroeiros da sua paróquia, pelo culto privilegiado que elegiam a um determinado protector celeste ao qual a igreja paroquial estava ancestralmente ligada, pelo tipo de formação e desempenho do corpo clerical que mais de perto lidava com as populações. 0 conhecimento do território constitui ainda uma chave de acesso e de entendimento da própria documentação deixada pela actividade administrativa e pastoral do bispo na sua diocese, na medida em que os arquivos eclesiásticos e muitas das actividades através das quais o bispo marcava a sua presença (de que as visitas pastorais são um exemplo flagrante) organizavam-se em função da ordenação territorial do bispado. Na realidade, todo o trabalho de reconstituição e inventário da documentação da Câmara Eclesiástica que se tem vindo a executar no Arquivo da Universidade de Coimbra, mostra como a documentação aí se organizava em termos geográficos, sendo muito comum que os documentos tives-sem no seu canto superior esquerdo o nome da paróquia a que se referiam, para deste modo serem mais facilmente localizados e arquivados.
As visitas pastorais, por outro lado, eram efectuadas em função da rede de arcediagados e de paróquias, durante o século XVII e quase todo o século XVIII, já que nos finais do século XVIII passam também a respeitar a divisão em arciprestados.
O conhecimento do território ficaria mutilado sem a avaliação do número dos homens que o habitam. Não é possível determinar muitos dos indicadores de comportamentos das populações sem ter em conta o seu peso demográfico e a sua distribuição geográfica. Ora o conhecimento desta realidade no que diz respeito às populações de Antigo Regime liga-se quase exclusivamente à capa-cidade que a Igreja tinha para contar os seus crentes. As fontes principais e mais conhecidas para a efectivação desta tarefa, os registos paroquiais, eram, com maior ou menor rigor, produzidos pelos párocos. Quando havia necessidade de fazer um levantamento da população, gesto que foi muito comum durante o século XVIII por parte de alguns autores de corografias, recorria-se ao conhe-cimento que os párocos tinham dos seus fregueses, cômputo que normalmente seria realizado por estes através do registo de róis de confessados (7)..."
Comentários