Do Livro das Visitações de Cebola/S. Jorge da Beira I e II
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Aqui, cópia do texto:
DO LIVRO DAS VISITAÇÕES - CEBOLA
Para os interessados na história da freguesia de Cebola/S. Jorge da Beira - Covilhã, o meu modesto contributo - porque não é fácil 'reconstruir' uma velha igreja 'desaparecida':
- Versão revista e aumentada -
Transcrição integral das duas Sentenças que determinaram a (re)criação da Paróquia/Freguesia (2) de Cebola/S. Jorge da Beira, em 12 de Junho de 1762 e seu contexto:
Do LIVRO DAS VISITAÇÕES
da Freguesia de Cebola - I
Em 1760:
- reinava, em Portugal, D. José I (1750 - 1777);
- era Bispo da Guarda D. Bernardo António de Mello Osório e Sousa, do Conselho de Sua Majestade (1742 - 1771);
- era Comendador da Comenda de S. Vicente (da Beira), (à qual Casegas e o lugar de Cebola pertenciam) o 6° Conde de S. Vicente, Manuel Carlos da Cunha e Távora (1749 - 1775);
- e leio algures, sobre a Alcaidaria da Covilhã:
"... 5º Visconde.
Luís António Furtado de Castro do Rio de Mendonça e Faro
1754-1830
6º Visconde de Barbacena.
1º Conde de Barbacena.
Curiosidade – Aquando da Guerra dos 7 Anos (1756-1763) a Covilhã, invadida em 1762, chegou a ter um “alcaide fantasma" não nomeado pelo rei D. José I, mas pelo comandante das tropas francesas e espanholas, chamado Filipe Pacheco de Aragão; este nomeou Ventura José “alcaide pequeno”..."
- Cinco anos depois do enorme terramoto de 1755, que devastou Lisboa e se fez sentir em todo o país:
- Juntaram-se os Moradores de Cebola e decidiram fazer uma revolução nas suas vidas particulares e na vida comunitária do lugar de Cebola, requerendo a sua desanexação da freguesia de Casegas e pedindo que o lugar de Cebola fosse elevado à categoria de Paróquia/Freguesia (2), alegando as dificuldades do caminho para Casegas e o facto de, neste lugar de Cebola, existir já uma igreja, com pia baptismal, da fábrica dos seus antepassados, embora já não se encontrasse nas condições ideais de servir à sua finalidade, havendo necessidade de nela se fazerem obras de reparação, vieram a obter, em 12 de Junho de 1762, DUAS SENTENÇAS favoráveis às suas pretensões, a primeira, datada de 3 de Setembro, de 1761 e a segunda, datada de 12 de Junho de 1762.
Dado que a primeira sentença data de 3 de Setembro de 1761, os Autos, para este efeito, terão dado entrada, na Câmara Eclesiástica do Bispado da Guarda, no decorrer do ano de 1760.
E assim começa este LIVRO DAS VISITAÇÕES (género de livros que se encontra em todas as freguesias que se prezam da sua antiguidade, para nele se registarem os actos mais relevantes de cada freguesia e Cartas emanadas do poder central referentes a necessidades importantes de interesse nacional, como por exemplo, casos de guerra e recrutamento de milícias...)
Advertência:
palavra que eu ainda não consigo decifrar, escrevo (...); palavra sobre a qual tenha dúvidas, escrevo (?).
1. Origem e finalidade deste Livro das Visitações:
"Cometo as minhas vezes ao Reverendo Beneficiado (a) José Mendes de Almeida a numerar e rubricar este Livro que há de servir para nele se escreverem os Usos e Cartas de Visitações do CURATO DE S. JORGE NOVAMENTE ERETO NO LUGAR DE CEBOLA, ANEXO DO CASTELEJO.
Guarda, 12 de Junho de 1762
(segue assinatura)
"Dizem os Moradores do lugar de Cebola, deste Bispado da Guarda, freguesia de Casegas, filial do lugar de Castelejo, que ELES ESTÃO DESANEXADOS DA DITA FREGUESIA DE CASEGAS E ESTÁ ERETA A IGREJA DE S. JORGE, DESTE LUGAR DE CEBOLA, EM PARÓQUIA, porque alcançaram Sentenças do M.R.Dr. Vigário Geral deste mesmo Bispado e de V.M. (Vossa Majestade (?)) e, para a todo o tempo constar querem cópia (?) das ditas Sentenças de eternidade (?) neste Livro, que há de servir para os Usos e Pastorais em forma autêntica.
(segue assinatura) M.M.R.Dr.Sr. Provisor seja servido mandar-lhe trasladar as ditas Sentenças que (...) e que DEPOIS SE LHES ENTREGUE.
(segue assinatura)
"O Escrivão da Câmara passe neste Livro a Certidão que os Suplicantes pedem do teor das DUAS SENTENÇAS; e não será necessário registar-se nele, como se manda na minha Sentença a que há de extrair dos Autos; COM A DITA CERTIDÃO, SE ENTREGUE O MESMO LIVRO AOS SUPLICANTES, PARA TRATAREM DE SOLICITAR A EREÇÃO DO NOVO CURATO.
Guarda, 12 de Junho de 1762.
(segue assinatura)
2. Da PRIMEIRA SENTENÇA
Advertência: Os Autores dos Autos são os Moradores de Cebola. Os Autos são o processo judicial. E os Autores são os Suplicantes Moradores de Cebola que "suplicam" serem desonerados das suas obrigações para com a Freguesia/Paróquia de Casegas (2) e que seja novamente erecta a Freguesia/Paróquia (2) de Cebola, por todas as justificações que alegam nos Autos. Daí que o juiz seja o Juiz das Justificações que há de averiguar da validade ou não das justificações alegadas relativamente àquilo que pretendem obter da justiça. Certamente foram ouvidos os Moradores de Casegas que, nesta Sentença, são os Réus, na medida em que se opuseram às pretensões dos Moradores de Cebola. Mas, as suas alegações não constam da Sentença, uma vez que ela própria lhes responde.
"Câmara da vila de Celorico (?) da Beira, Notário (...) e oficial da Câmara Eclesiástica deste Bispado da Guarda:
Em cumprimento do Despacho retro (anterior (?)) do Muito Reverendo Dr. Martinho Rodrigues, Provisor e Juiz das Justificações de Genere desta cidade e Bispado da Guarda pelo Excelentíssimo e Reverendíssimo Senhor Bernardo António de Mello Osório e Sousa, por mercê de Deus e da Santa Igreja Apostólica, Bispo deste Bispado do Conselho de Sua Majestade Fidelíssima, CERTIFICO que, por parte dos Suplicantes, Moradores do lugar de Cebola, ME FORAM APRESENTADAS DUAS SENTENÇAS, DE QUE FORAM MENÇÃO E O TEOR DA DO Muito Reverendo Doutor Vigário Geral desta cidade e Bispado e o seu teor é o seguinte:
"Vistos estes Autos, libello (?) dos Autores, Juiz, Acordo e mais moradores do lugar de Cebola, freguesia de Casegas, anexa e filial do Castelejo, distrito do Fundão, deste Bispado, que os Réus não contrariam provas e o mais que dos Autos consta, ALEGA-SE PELOS AUTORES, QUE SÃO OS MORADORES DO DITO LUGAR DE CEBOLA, freguesia de Casegas e que dista um lugar do outro duas léguas compridas, perto de três, sendo o caminho sumamente áspero, medonho e montuoso, por mediar uma serra que, de subida e descida, tem quase uma légua, coberta de grande mato, em que se criam lobos e porcos monteses e que, pela distância, querendo alguma mulher confessar-se e ir à Paróquia, é preciso procurar quem a acompanhe e que, sendo como são os Autores obrigados à Paróquia de Casegas, padecem incómodo grande, porquanto, para ouvir Missa nos dias de preceito, receberem os sacramentos, sepultarem os defuntos lhes é preciso saírem, principalmente no Inverno, de madrugada e recolherem de noite; que, precisando de chamar o Reverendo Pároco para a administração dos sacramentos, é preciso, de noite, irem dois homens; que, no caminho, há, não só uma ribeira grande, mas três, que, suposto a maior tenha ponte de pau, é medonha e crescendo (a água (?)) nas de passagem e que, por causa das ditas ribeiras e distância, têm falecido sem sacramentos algumas pessoas; que, havendo queixas ou doenças apressadas, è impossível acudir o Pároco a administrar os sacramentos, porque, aviando-se de manhã, chega a noite e, dando-se-lhe avio à noite, não chega senão de manhã; que tem sucedido abortarem no caminho algumas mulheres e que, não havendo quem diga Missa no dito lugar, muitos moradores ficam sem a ouvir nos dias de preceito, uns por (serem) velhos, outros por (estarem) doentes e muitos por não poderem desamparar as suas casas e gados; QUE O LUGAR DE CEBOLA TEM QUARENTA FOGOS E IGREJA COM CAPACIDADE PARA OS MORADORES PRECISANDO SOMENTE DA CAPELA MOR SER (...) E FAZER DE NOVO, PARA ESTAR COM DECÊNCIA; CONCLUINDO QUE SE LHE DEVE DAR PÁROCO, PÁROCO COM CÔNGRUA COMPETENTE, NA FORMA DO DIREITO E DO SAGRADO CONCÍLIO TRIDENTINO E CONSTITUIÇÃO DO BISPADO.
O QUE TUDO VISTO, com o mais dos Autos, disposições de Direito no presente caso e, como se prova que o lugar de Cebola, anexo da igreja de Casegas tem quarenta fogos..."
(etc. repetindo as alegações atrás expostas por parte dos Moradores de Cebola, CONCLUI E DETERMINA:)
"... julgam-se provadas as causas que de Direito se requerem PARA A EREÇÃO DE NOVA PARÓQUIA NO DITO LUGAR DE CEBOLA e nela receberem os Autores os sacramentos, assistirem aos ofícios divinos... PARA O QUE DEVEM OS AUTORES RECORRER AO Excelentíssimo, Reverendíssimo Senhor Bispo, a fim de lhes ERIGIR A NOVA PARÓQUIA FILIAL na forma do Concílio Tridentino e Constituição deste Bispado E PAGUEM OS RÉUS (1) OS AUTOS.
Guarda, Setembro, três, de mil e setecentos e sessenta e um.
(assinatura): Manoel Tomé Bello.
E não se continha mais em a dita Sentença do Muito Reverendo Doutor Vigário Geral, que aqui trasladei."
Obtida esta Sentença, que determina a desanexação de Cebola da freguesia de Casegas, era necessário requerer ao Bispo a ereção da nova paróquia/freguesia (2) e em que termos, como recomenda esta primeira Sentença. E a resposta chegou, com a segunda Sentença de 12 de Junho de 1762, que também transcreverei aqui, apenas quanto aos novos dados que ela acrescenta a esta primeira Sentença.
Notas:
(a) Benefício Eclesiástico:
https://pt.m.wikipedia.org/wiki/Benef%C3%ADcio_eclesi%C3%A1stico
(1) Os Moradores de Casegas
(2) Sobre a questão Paróquia ou Freguesia (?) nos tempos antigos:
Ver, por ex. Wikipedia:
"Até ao Liberalismo, “freguesia” e “paróquia” eram sinónimos (à semelhança de “concelho” e “município”), não havendo uma estrutura civil separada da estrutura eclesiástica. Nesses tempos, o termo «freguês» (aglutinação da expressão latina filius ecclesiae, filho da igreja, ou simplesmente filigrês, como refere Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira) servia para designar os paroquianos, que eram, por assim dizer, «fregueses» do pároco.
Com a reforma administrativa de 18 de Julho de 1835, surge a estrutura civil da Junta de Paróquia, autonomizada da estrutura eclesiástica; os seus limites territoriais, no entanto, eram geralmente coincidentes com os das paróquias eclesiásticas que vinham desde a Idade Média. Com a Lei n.º 621, de 23 de Junho de 1916, as paróquias civis passam a designar-se freguesias (e a Junta de Paróquia passa a designar-se Junta de Freguesia), fixando-se assim a diferença entre a estrutura civil (freguesia) e a estrutura eclesiástica (paróquia); no entanto, em linguagem popular, é vulgar falar da pertença a determinada freguesia quando, de facto, se pretende falar da pertença a uma comunidade paroquiana.[5]"
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Do Livro das Visitações
da freguesia de Cebola - II
3. Da SEGUNDA SENTENÇA:
"Certifico que o teor da Sentença do Muito Reverendo Doutor Provisor é da maneira e forma seguintes:
"VISTOS ESTES AUTOS: Petição dos Moradores do lugar de Cebola, agregados para cumprirem com as obrigações de paroquianos à Igreja de S. Pedro do Curato do lugar de Casegas, um e outro deste Bispado e ambos coexistentes dentro dos limites da Igreja Paroquial de Nossa Senhora da Silva do lugar de Castelejo em que antigamente foi e se acha instituída uma das Comendas que a Ordem Militar de Nosso Senhor J.C. tem neste Bispado, das que ficaram dos Templários e se incorporaram na dita Ordem cuja Comenda para a percepção dos dízimos e mais rendimentos da Paróquia se costuma prover em Cavaleiros da mesma dita Ordem, dela é actual Comendador o Meritíssimo e Excelentíssimo Conde de S. Vicente. E a Igreja, pelo que respeita ao espiritual e cura dos paroquianos, costuma prover-se em Vigários perpétuos, apresentados por Sua Majestade, como Governador e perpétuo Administrador do Mestrado, Cavalaria e dita Ordem de N.S.J.C. e Confirmador, ora instituídos e Cav.ados (sic) pelos Excelentíssimos e Reverendíssimos Bispos ou seus Ministros - como tudo o é constante e bem sabido neste Bispado.
E visto na dita Petição o requerimento que os Suplicantes, os moradores do dito lugar de Cebola têm feito (fizeram) a Sua Excelência Reverendíssima e o mesmo Senhor houve por bem remeter-me, para se lhe erigir, conforme ao Direito, nova paróquia, CONSTITUINDO-SE-LHE, EM IGREJA PAROQUIAL E BAPTISMAL DA MESMA PARÓQUIA, UMA CAPELA DA INVOCAÇÃO DE S. JORGE, QUE OS SUPLICANTES TÊM E FÁBRICAS, HÁ MUITOS ANOS, COM FACULDADE DE NELA SE DIZER MISSA, NO DITO SEU LUGAR DE CEBOLA - como também é notório em toda a freguesia.
Vista outrossim a Sentença junta e os Autos apensos, de que foi extraída e que correram no Juízo Contencioso deste Bispado, no qual os Suplicantes propuseram e trataram de justificar a necessidade e causas precisas para se lhe erigir a pretendida paróquia, citado para obter juízo, o sobredito Excelentíssimo Comendador, que, dando-se por seu procurador por citado e, para, testando, requerer no dito Juízo, o que fez e a bem de sua justiça - NÃO COMPARECEU A REQUERER COISA ALGUMA. E, À SUA REVELIA, CORREU A CAUSA SEUS TERMOS.
Citado, outrossim, para ele o Reverendo Vigário actual da sobredita Igreja (de Castelejo), o qual, por termo assinado por seu procurador nos Autos - NÃO IMPUGNOU A PRETENSÃO DOS SUPLICANTES E CORRERAM OS DITOS AUTOS ATÉ FINAL - SENTENÇA PELA QUAL SE JULGARAM E DECLARAM PROVADAS E LEGÍTIMAS AS CAUSAS ALEGADAS PELOS SUPLICANTES, PARA SE LHE ERIGIR NOVA PARÓQUIA, na forma do Direito, do sagrado Concílio Tridentino e Constituição deste Bispado.
E, finalmente, VISTAS AS INFORMAÇÕES EXTRAJUDICIAIS que, para deferir aos Suplicantes, PROCUREI EX OFFICIO (oficialmente, por obrigação das suas funções) e o mais destes Autos e dos apensos, mormente (?) que o lugar de Cebola de que (onde), consta a represente de quarenta fogos e que existe distante do lugar de Casegas, a que foram agregados, como acima se disse, duas boas léguas de caminho áspero... (etc. Repete as alegações dos Suplicantes quanto ao caminho...) ..... acrescendo ao referido: QUE O CURATO DE CASEGAS, SEPARANDO-SE DELE OS QUARENTA FOGOS DO LUGAR DOS SUPLICANTES, pelo que me constou do rol dos confessados deste ano, ainda fica com o número de cento e cinquenta e quatro fogos e grande parte deles, como é notório na freguesia, no LUGAR DO SOBRAL, distante de Casegas uma boa légua, e alguns outros EM MONTES OU CASAIS também afastados - de que bem se pode considerar precisa e de muita utilidade, para todos os fregueses agregados ao dito Curato - A DESMEMBRAÇÃO E DIVISÃO DELE que os Suplicantes pretendem.
E SE CONCLUI DE TUDO: DEVE-SE ERIGIR NOVA PARÓQUIA (2) NO SOBREDITO LUGAR DE CEBOLA, na forma da Constituição de Alexandre Terceiro, que começa: "Ad audientiam", Decreto do Concílio Tridentino, na Sessão 21, Capítulo t - De Reformatione; OU, ao menos, é conforme ao mesmo Concílio, no princípio do mesmo Decreto, mais fácil e o que somente se pratica neste Bispado e O COMO NELE SE ACHAM ERETAS AS FREGUESIAS E IGREJAS QUE CHAMAM PAROQUIAIS, FILIAIS e a menos que se não confiram em título - DEVE ERIGIR-SE NO DITO LUGAR UM CURATO AMOVÍVEL, como o que fica dito de CASEGAS e os de SILVARES e de LAVACOLHOS, eretos há muitos anos nos limites da mesma PAROQUIAL E COMENDA DO CASTELEJO; OU, para melhor dizer: UMA CAPELANIA DE CAPELÃO COM RESIDÊNCIA NO DITO LUGAR; e obrigação de Missa para os Suplicantes satisfazerem ao preceito (...) e de lhes administrar os sacramentos e exercitar para com eles tudo o que pertence ao Mistério Paroquial, por os Suplicantes não poderem, sem as dificuldades e perigos que se têm revelado, ir à paróquia do Castelejo ou à Igreja de Casegas nem ser eles por seus ministros socorridos, como convém nas suas doenças, com os sacramentos e o mais necessário para a salvação de suas almas - assignando-se (sic) ao Capelão, pelo seu trabalho, salário competente e que se lhe deve satisfazer pelos rendimentos da dita Comenda, conforme ao Direito e costume comum deste Bispado, onde, a semelhantes, pagam as Côngruas que se lhe arbitram ou que percebem (recebem) os dízimos e rendimentos das freguesias e na mesma desta Comenda, como é notório - SE ACEITA O OBSERVADO NOS DITOS TRÊS CURATOS DE CASEGAS, SILVARES, LAVACOLHOS;
MOSTRA-SE MAIS QUE:
A SOBREDITA CAPELA DE S. JORGE, EXISTENTE NO DITO LUGAR DE CEBOLA E FABRICADA PELOS ANTEPASSADOS DOS SUPLICANTES, TEM A CAPACIDADE NECESSÁRIA PARA INTERVIREM E CONCORREREM NELA AOS OFÍCIOS DIVINOS E RECEBER OS SACRAMENTOS E, PARA NELA E EM SEU ADRO SEREM SEPULTADOS E QUE, PARA O REFERIDO, A TÊM OS SUPLICANTES PARAMENTADA E INSTRUÍDA BASTANTEMENTE DO QUE É PRECISO E QUE SUPOSTO LHE FALTA NO EDIFÍCIO A FORMALIDADE DE CAPELA MOR DISTINTA (separada) - OS SUPLICANTES AFIXAM (sic) (comprometem-se, assumem, prometem) REPARTIR COM GRADES DECENTES E ORDENADAS DE MANEIRA QUE NÃO IMPEDEM (impeçam) AO POVO A VISTA DO ALTAR E O SEPARAM, PARA QUE OS LEIGOS, COM A SUA PRESENÇA (?) PERTO DELE, NÃO POSSAM EMBARAÇAR OS OFÍCIOS DIVINOS - COM O QUE BEM SE REMEDEIA A DITA FALTA, ENQUANTO SE NÃO FIZER CAPELA MOR CUJA FÁBRICA (as obras) OS SUPLICANTES PODERÃO REQUERER, PARA QUE SE LHES CONSTITUA COMO SE PRATICA NAS IGREJAS DAS COMENDAS DA SOBREDITA ORDEM DE CRISTO.
E, PORTANTO, em consideração de tudo o que acima se tem relatado - pela autoridade que o Excelentíssimo e Reverendíssimo Senhor Bispo deste Bispado me tem especialmente cometido - PARA DEFERIR AOS SUPLICANTES MORADORES DO SOBREDITO LUGAR DE CEBOLA - DESOBRIGANDO-OS E AOS SEUS SUCESSORES QUE, PARA O FUTURO, ASSISTIREM NO MESMO LUGAR, DE SATISFAZEREM AS OBRIGAÇÕES DE PAROQUIANOS NÃO SÓ NA SOBREDITA SUA IGREJA PAROQUIAL E MATRIZ DO LUGAR DE CASTELEJO, DA QUAL PRIMEIRAMENTE FORAM DESOBRIGADOS, MAS TAMBÉM DA IGREJA DO CURATO FILIAL DA MESMA, DO LUGAR DE CASEGAS, A QUE FORAM ADIDOS (1) - LHES CONSTITUO, ORDENO E CRIO DE NOVO, como se costuma neste Bispado, NOVO CURATO NO DITO SEU LUGAR DE CEBOLA E, POR IGREJA CURADA E BAPTISMAL DELE, A DITA CAPELA DE S. JORGE, PARA nela baptizarem seus filhos, receberem os mais sacramentos, assistirem aos ofícios divinos, sepultarem os seus defuntos E SATISFAZEREM TODAS AS OBRIGAÇÕES DE PAROQUIANOS - TENDO O MESMO LUGAR SACERDOTE RESIDENTE, que seja seu Cura E EXERCITE EM TUDO AS VEZES DE PÁROCO, COM APRESENTAÇÕES ANUAIS DOS VIGÁRIOS DA SOBREDITA IGREJA PAROQUIAL E MATRIZ DO CASTELEJO e com as aprovações, confirmações e Cartas costumadas neste Bispado estabelecidas nas Constituições do mesmo Bispado.
E POR SALÁRIO OU CÔNGRUA DO DITO CURA, atendendo a que ao que há de obter em um tal Curato há de ser ténue (?), LHE ARBITRO, reduzindo todo o salário a dinheiro e com algum respeito para com as côngruas em dinheiro e frutos dos outros Curatos da mesma Comenda, A QUANTIA DE VINTE E SEIS MIL REIS que se lhe devem satisfazer pelos rendimentos dela E MEIADA UM ANO (2).
Haverão outrossim OS CURAS DESTE NOVO CURATO OS MAIS EMOLUMENTOS QUE, por Direito, Constituições deste Bispado e por usos e costumes lhes pertencerem, POR RAZÃO DO SEU OFÍCIO.
E para que conste em todo o tempo desta ereção, assignação (sic) e arbítrio de Côngrua - MANDO QUE DELAS SE PASSE E DÊ AOS SUPLICANTES SUA PROVISÃO E SENTENÇA EM FORMA, QUE SE REGISTARÁ NO LIVRO DAS VISITAÇÕES E PASTORAIS QUE DEVE HAVER EM A NOVA IGREJA.
Guarda, quinze de Junho, de mil e setecentos e sessenta e dois anos.(3)
Assinatura: Martinho Rodrigues
E não se continha mais em o teor das duas ditas Sentenças que Eu (segue rubrica)."
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E assim foi feito. E deste Livro as transcrevi.
Junto com as Sentenças foi também entregue aos Moradores de Cebola o LIVRO DOS BAPTISMOS DA FREGUESIA DE CEBOLA/S. JORGE DA BEIRA, desta nova (e outra vez) freguesia de Cebola, cuja primeira folha também eu já transcrevi há tempos - mas que já se encontra em tombo.
NOTAS:
(1) De onde se depreende que: 1. A Igreja de S. Jorge, de Cebola, em 1762, já era muito antiga, de construção anterior ao Concílio de Trento, ocorrido por volta de 1562 e citado, acima, na Sentença, para esse efeito, uma vez que a obrigação da separação da capela mor do resto do corpo da igreja passou a ser obrigatória para as igrejas a construir daí em diante.
2.O facto de a capela ser pouco usada, depois da anexação a Casegas, e o facto de nela ainda existirem paramentos e objectos de culto como cálice, naveta de incenso, corporal, casula, bem conservados, no dizer da sentença... leva a crer que inicialmente esta igreja foi constituída como paróquia idêntica à de Casegas, Silvares, Lavacolhos... A crise populacional advinda, de de forma geral, no séc. XIV, terá feito definhar esta povoação e terá sido então anexada a Casegas... Recuperou e, em 1760, a genica dos homens de Cebola também se fez sentir da maneira como estamos ver... digo, a ler...
Sobre a crise do século XIV:
https://pt.m.wikipedia.org/wiki/Crise_do_s%C3%A9culo_XIV
(2) Ser paga em duas prestações: uma, pelo S. João e a outra, pelo Natal.
(3) Data da transcrição desta Sentença para o Livro das Visitações da nova freguesia de Cebola, como manda a própria, a pedido dos Suplicantes Moradores de Cebola.
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Pensava eu ter concluído esta parte relativa às Sentenças. Mas há ainda um Despacho que aclara o que é dito na segunda Sentença, relativamente ao pagamento do salário ou Côngrua do Novo Cura na (re)nova(da) Paróquia/Freguesia da Igreja de S. Jorge de Cebola: no seguimento da assinatura, em fundo de folha:
"O sobredito Beneficiado Joseph Mendes de Almeyda - aqui trasladei bem e fielmente das próprias, a que eu tudo e por todo me reporto E AS ENTREGUEI AOS SUPLICANTES e não leva esta Certidão borrão, entrelinha, nem coisa que haver dúvida faça, salvo algum (...) e grosso de pena, e a conferí e consertei com um Notário Apostólico, comigo e abaixo assinado, em fé do que me assino de meu sinal costumado em esta cidade da Guarda AOS DEZOITO DIAS DO MÊS DE JUNHO, DE MIL SETECENTOS E SESSENTA E DOIS:
Que, no ofício da Câmara Ecles.ca (sic) escrevi e assinei, conferi e converti
(segue rubrica do Beneficiado)
Consertado comigo
Ben.do (sic) Joseph Mendes de Almeyda
E comigo, oficial da Câmara,
António Carlos Costa
Desta ___ . __ 324.
Certifico outrossim que, depois da dita Sentença do Muito Reverendo Doutor Provisor, se acha nos Autos da ereção se acha o Despacho (...) e forma seguintes
= DECLARO E MANDO que, se por algum embaraço ou impedimento, SE NÃO PAGAR AO NOVO CURA O SALÁRIO OU CÔNGRUA, NA SENTENÇA ACIMA ARBITRADA, PELOS RENDIMENTOS DA COMENDA - LHE SATISFARÃO OS SUPLICANTES A SUA CUSTA E A ISSO SERÃO OBRIGADOS COM CENSURAS, EM DUAS PAGAS, UMA PELO NATAL E OUTRA PELO S. JOÃO DE CADA UM ANO.
Guarda, dia, mês e ano como acima
= Rodrigues =
E não se continha mais em o dito Despacho que aqui trasladei bem e fielmente, em fé do que me assino de meu sinal costumado nesta cidade da Guarda, aos 18 de Junho de 1762:
O Benef.do José Mendes de Almeida que no of. da Câmara Ecles.ca escrevi e assinei
O Benef. Joseph Mendes de Almeyda"
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