Do Livro das Visitações de Cebola/S. Jorge da Beira - III

Do Livro das Visitações da freguesia de Cebola/S. Jorge da Beira - III

Da Demarcação do Adro da Antiga Igreja de S. Jorge, da Freguesia de Cebola

Já disse que não sabemos ao certo nem a época nem muito menos os anos da construção desta velha igreja, já desaparecida e substituída, em seu lugar, por uma moderna igreja dos anos 50/60 do século XX. Nem o Bispado da Guarda, em 1762, foi capaz de datar a construção desta antiga igreja. Disse este Bispado apenas que era devotada a S. Jorge e resultado da "fábrica dos antepassados dos moradores do lugar de Cebola" que, nesse ano, "alcançaram duas sentenças" da Câmara Eclesiástica daquele Bispado que determinaram satisfazer os anseios dos moradores "suplicantes" deste lugar: ficarem desanexados da freguesia de Casegas e reerguer aquele lugar em paróquia e freguesia, com pároco residente, da apresentação da Matriz do Castelejo e Comenda de S. Vicente (da Beira), da Ordem de Cristo, tal como Casegas, Silvares e Lavacolhos o eram.
Diziam tais sentenças e Visitações subsequentes que, para tal, o espaço destinado ao edifício eclesial precisava de obras e da aquisição de algumas alfaias litúrgicas, para as cerimónia do culto, além daquelas que já tinha: desde a construção da capela mor, que não tinha - o que faz remontar a sua construção a tempos anteriores ao Concílio de Trento (1562 ss.) - até à reparação do piso (estava em terra batida) e do tecto (em mau estado) passando pela recolocação do altar, de modo a ser melhor visto pela assistência e pela aquisição de mais paramentos, mais um cálice, mais uma naveta para incenso... E um Adro adequado, para nele se sepultarem os mortos.
Em "As Paróquias Rurais Portuguesas - Sua Origem e Formação", de Miguel de Oliveira, 1940, in Revista de Guimarães, lê-se:
"Ao fundar-se uma Igreja (- esta, de que falo, estava a ser re-fundada em 1762, como já disse - ) era costume consignar-se aos ministros do culto certas pensões, pagas pelos fregueses, com o nome de 'debito' ( - já vimos que a côngrua "arbitrada" aos novos Curas desta Igreja seria de 26 mil réis/ano - ) e reservar, ao redor do edifício, uma pequena cerca correspondente ao Adro actual. Chamavam a estes recintos 'dextruos' ou 'passales' e eram privilegiados. Já nos tempos Visigóticos, com imunidade eclesiástica. Na carta de fundação da Igreja de Lordosa, em 882, declaram os instituidores que lhe reservavam "in omnique circuitu suos dextruos sicut kanonica sentencia docet: DUODECIM PASSALES pro corpora fumudandum et LXXII ad tolerandum fratrum"...
"Para encurtar as citações, basta dizer que, no geral, se destinavam 12 PASSOS A CEMITÉRIO e 72 a logradouro dos clérigos (... Em 1427, para a imunidade, segundo declaração do clero, 40 passos, se a igreja era catedral e 30 nos outros casos)...
"A maioria dos templos eram, como diz Alberto Sampaio, "quasi-ermidas, construídas e adornadas com pobreza, muito embora a linguagem enfática dos notários lhes chame basílicas". Mas também os havia dotados de alfaias preciosas. Em 959, a condessa D. Mumadona legou ao mosteiro de Guimarães um verdadeiro tesouro, em objectos e utensílios de culto..."
Sobre padroado das igrejas, bastante haveria a dizer. No caso, o padroado deveria caber à Comenda de S. Vicente da Beira, mas parece que o Conde comendador não estava com disposição de abrir os cordões à bolsa para prover às necessidades aqui descritas desta antiga igreja de S. Jorge, novamente erecta em paróquia, contrariamente ao que indicavam as sentenças da Câmara Eclesiástica do Bispado da Guarda e as regras da Ordem de Cristo, porque, logo que foi pronunciada a segunda sentença, imediatamente se lhe segue um Despacho, dizendo que, caso houvesse obstáculos, por parte da Comenda em assumir aquelas despesas, estas deveriam ocorrer por conta dos moradores de Cebola.

"Auto de Demarcação do
Adro da Nova Igreja do Lugar de Sebolla (sic)

Em os e cinco dias do mês de Junho da era de mil e setecentos e sessenta e dois anos, eu, Rev. Pedro Lopes Ferreira (?), Cura actual da Igreja de S. Mateus do lugar de Unhais-o-Velho, arciprestado do Fundão e Bispado da Guarda, em observância (?/obediência?) de um Despacho do M. Rev. Sr. Dr. Provisor deste dito Bispado, para fazer (?) o Auto (...) na companhia do Pe. Francisco Gomes Nogueira e fazer (?) a Demarcação do Adro da nova Igreja de S. Jorge do lugar de Sebolla (sic), a qual demarcação fizémos, em pretensão do Despacho do juiz (?) de genere (?) - Tem o Adro que demarcámos, para a parte principal, vinte e cinco palmos (1) em adro e para a parte de onde se há de fazer a Capela Mor, outro tanto e, para os lados, tem doze palmos e tudo fica demarcado com marcos e é o dito adro capaz de servir de Cemitério, para a parte da porta principal e para o lado direito. E por verdade (?) mandei fazer este termo (?) da demarcação que fizemos  hoje, aos dezoito dias do mês de Junho da era de 1762.

O Pe. Pedro Lopes Ferreira (?)
O Pe. Francisco Gomes Nogueira"

Notas:
(1) Um palmo media 22 centímetros. O metro começou a tornar-se unidade de medida universal, com a Revolução Francesa, ou seja, depois de 1799, trinta/quarenta anos depois do evento aqui relatado.
E continuamos sem saber qual era o comprimento desta igreja.

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